2 de março de 2018

The Post

O Quarto Poder

Dir: Steven Spielberg, EUA, 2017, 1h56min
IMDB                 Trailer


Qual o papel da imprensa na sociedade contemporânea? Essa talvez seja a principal questão que Steven Spielberg queira responder em The Post.

Na trama passada em 1971, a dona do The Washington Post fica no dilema entre publicar arquivos secretos sobre o fracasso da Guerra do Vietnã que a justiça já havia proibido o concorrente The New York Times de divulgar, mantendo a credibilidade de seu veículo, ou se calar, evitando a possível falência da empresa e um mal estar com seus amigos políticos de longa data. 

O filme foi feito para engrandecer os jornalistas, mostrados como uma classe de pessoas sempre em busca de mostrar à sociedade o mal que o governo pode causar. Há, inclusive, muitos termos do setor, como "lide" e "foca", que talvez os não habituados ao jargão das redações tenham um pouco de dificuldade em compreender.

O papel da imprensa na informação aos governados, tão questionado sobretudo após a vitória política de Donald Trump, é bem analisado na trama. O vilão principal aqui é Richard Nixon, mas  a culpa sobra também para todos os presidentes anteriores a ele envolvidos na Guerra do Vietnã: Eisenhower, Kennedy e Johnson. Todos mentiram ao público sobre as chances dos EUA vencerem a guerra.

Há um embate muito forte no filme entre o dinheiro e o interesse público. De um lado estão os jornalistas, que querem mostrar tudo, doa a quem doer. Do outro a editora do jornal, que sabe que se o jornal desagradar muita gente pode perder anunciantes e leitores e não ter mais saúde financeira para seguir produzindo material de qualidade, perdendo o próprio sentido da existência.

Spielberg não resiste a seu habitual sentimentalismo e passa um pouco do ponto na análise do drama da protagonista, uma milionária que tem que lutar pelo legado da empresa de sua família. Até mesmo outros personagens mostrados como pessoas comuns se compadecem desse drama emocional. Felizmente os exageros de pieguice aqui estão contidos, ao contrário de seu último filme "adulto", Ponte dos Espiões.

Há também algumas pitadas de discussão sobre a inserção feminina no mundo empresarial bem inseridas. Não é um tratado sobre o tema, mas é bem contextualizado, mostrando que se ainda hoje as mulheres vivem desafios no mundo corporativo, há quase 50 anos atrás elas eram vistas como alienígenas.

No elenco os dois maiores pesos pesados de Hollywood, Meryl Streep e Tom Hanks. Streep, como sempre, é competente, mas sua atuação não era digna de premiação dessa vez. No entanto, ela tem lugar cativo nas indicações, sendo essa a sétima nos últimos 10 anos. Hanks aqui deixou seu papel habitual de bom moço para interpretar um anti-herói e se saiu mal. Seu personagem é o estereótipo do diretor de redação durão e mal humorado. Para compô-lo, ele se vale de uma voz áspera extremamente caricatural que só prejudica sua atuação. Ainda assim, não chega a prejudicar o filme.

Tecnicamente, como é padrão nos filmes de Spielberg, o filme é bem realizado, com a bela fotografia de seu parceiro de longa data Janusz Kaminski. Merecem destaque as sequências que mostram a parte técnica da produção de um jornal antes da era digital.

Na corrida do Oscar o filme recebeu indicação para atriz principal e melhor filme. Não vai ganhar nada na noite da premiação, e nem merece, ainda que seja um bom filme.

The Post é um filme interessante sobre a importância da mídia nos bastidores do poder e merece ser visto por quem se interessa por entender como nossa visão sobre a política é formada.

Nota: 7

Um comentário :

  1. Quase uma ode ao jornal impresso, que hoje caminha para seu fim.
    Daqui alguns poucos anos as novas gerações assistirão filmes como esse para entender a importância do bom jornalismo.

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