19 de janeiro de 2016

Spotlight

Horror Oculto

Dir: Tom McCarthy, EUA, 2015, 2h08min
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Spotlight é um dos mais fortes concorrentes ao Oscar de melhor filme, tendo vencido em um dos "termômetros" da premiação, o Critics´ Choice, além de diversos prêmios menores. Também está indicado nas categorias de direção, roteiro original, ator coadjuvante, atriz coadjuvante e edição.

O filme trata da investigação jornalística do jornal The Boston Globe, através de sua equipe de investigações aprofundadas, a Spotlight, de uma série de casos de abusos infantis por padres que revelou ao mundo ser essa não apenas uma prática localizada mas um escândalo global acobertado pelo alto clero.

O ponto alto da estória é não transformar um caso tão sério em uma estória de vilões e de heróis. O filme mostra que o maior problema não era o de haver alguns padres degenerados que abusavam de crianças, mas o fato da igreja católica acobertar seus atos, sempre abafando os casos por meio de transferências para outras paróquias ou por licenças-saúde. E tudo isso em meio a cumplicidade da sociedade bostoniana, que preferia olhar para o outro lado quando sabia que havia algo de podre no ar.

O roteiro de Josh Singer e do também diretor Tom McCarthy é um dos destaques do filme. Um tema, por mais interessante que possa ser, pode ser mal trabalhado. No caso do filme, o tema poderia facilmente ter gerado um dramalhão sobre o sofrimentos das vítimas. Mas não é o que ocorre. O sofrimento é mostrado de maneira crua, sem necessidade de recursos narrativos como câmeras lentas ou músicas dramáticas. Os dramas pessoais são apresentados sem pudor, com descrições claras de como os padres se aproveitavam das crianças mais vulneráveis, normalmente provenientes de lares problemáticos. Mas o filme nunca perde o foco da questão institucional. 

O diferencial do trabalho da Spotlight foi ter descoberto todos os padres suspeitos de crimes sexuais, o que fizeram através da minuciosa leitura dos extensos catálogos de movimentação do clero, onde constavam todos os dados de transferências e licenças dos religiosos, como dito, expedientes utilizados pela igreja para abafar os casos. Esse grande trabalho de formiguinha é bem mostrado no filme, de maneira enxuta.

O filme, como é normal em filmes que envolvem jornalistas (nessa linha temos o clássico Todos os Homens do Presidente), conta com as tradicionais cenas com pessoas conversando enquanto andam apressadas pelas redações de jornais, e com muitos diálogos falados de maneira rápida. Também é interessante que o filme trata de maneira tangencial no tema da sobrevivência dos jornais em um mundo que caminhava para a mídia digital no começo dos anos 2000, assim como que a pauta jornalística pode ser fortemente afetada por um fato bombástico, como o 11 de Setembro, que ocorre durante as investigações e as suspende por um tempo. 

Importante destacar que o filme não vai para o lado simplista de dizer que o problema é a existência da religião, como muitos têm feito quando atribuem a culpa pelo terrorismo fanático de grupos como o Estado Islâmico à existência do Islã (Não é, Donald Trump?). O filme é sério e deixa localizado o problema entre seus responsáveis, sem deixar de apontar a mencionada covardia da sociedade que suspeitava do problema mas fingia ignorar, algo semelhante ao que fez a sociedade alemã da época do nazismo em relação à questão judaica.  

Outro destaque são as excelentes atuações. Não há exatamente um protagonista, mas Michael Keaton e Mark Ruffalo têm um pouco mais de destaque que os demais personagens. Ambos estão excelentes e qualquer deles merecia a indicação ao Oscar, que ficou para Ruffalo, que faz um jornalista determinado mas bastante impulsivo e atrapalhado, servindo até mesmo para um bem colocado alívio cômico. Se o prêmio dependesse somente do mérito, ele seria fortíssimo candidato à vitória. Rachel McAdams também foi indicada e faz um bom trabalho, mas seu papel tem importância um pouco menor na trama, sendo a personagem que mais se envolve, ainda que de forma muito contida, com as dores das vítimas e dos católicos que tentavam ignorar a verdade. Mesmo os personagens pequenos se destacam, sobretudo os atores desconhecidos que interpretaram as vítimas.

Somente por conta da direção de atores Tom McCarthy já faz jus à sua indicação ao Oscar. Mas, além disso, todos os outros elementos do filme estão bem colocados, como a fotografia e a edição, sem que esses roubem o espaço do ótimo roteiro.

Spotlight é um ótimo filme, que prende a atenção do espectador e o leva junto com a equipe na descoberta da verdade ao longo de suas 2 horas de projeção. Todas as peças funcionam bem, sobretudo as mais importantes, roteiro, atuações e direção, merecendo suas indicações ao Oscar.

Nota: 9

14 de janeiro de 2016

Oscar 2016: Indicados

And the Nominees Are...



Saiu a lista dos indicados ao Oscar. Conforme forem saindo os pitacos irei atualizando a lista. Basta clicar no título para ler o pitaco.

Todos os filmes indicados a melhor filme, melhores atuações e roteiros serão analisados aqui. Como são muitos filmes, o projeto é lançar até 3 pitacos por semana, às terças, quintas e sextas.

Considerações sobre as indicações:
- Star Wars merecia estar na lista de melhor filme, é melhor do que os outros 3 indicados que já vi (Mad Max, Ponte dos Espiões e Perdido em Marte)
- Ex-Machina merecia mais indicações. Levou por roteiro original e efeitos visuais, mas merecia por melhor filme, melhor diretor, ator coadjuvante (Oscar Isaac) e atriz coadjuvante (Alicia Vikander, que levou a mesma indicação por A Garota Dinamarquesa)
- Ponte dos Espiões é ruim e não mereceu as indicações a melhor filme e melhor roteiro. Tom Hanks poderia ter levado uma indicação pelo filme. 
- O Brasil tá no Oscar com a animação O Menino e o Mundo. Não adianta torcer porque não vai ganhar de Divertida Mente, mas a indicação já é um prêmio.

Lista Completa dos Indicados


Melhor Filme


Melhor Diretor


Melhor Atriz


Melhor Ator


Melhor Atriz Coadjuvante


Melhor Ator Coadjuvante


Melhor Roteiro Original


Melhor Roteiro Adaptado


Melhor Canção Original

  • "Earned It" - Cinquenta Tons de Cinza
  • "Manta Ray" - Racing Extinction
  • "Simple Song #3" - Youth
  • "Writing's On The Wall" - 007 Contra Spectre
  • "Til It Happens To You" - The Hunting Ground

Melhor Fotografia


Melhor Figurino


Melhor Maquiagem e Cabelo


Melhor Mixagem de Som


Melhor Edição de Som


Melhores Efeitos Visuais


Melhor Design de Produção


Melhor Edição


Melhor Trilha Sonora


Melhor Longa Estrangeiro

  • Theeb - Jordânia
  • A War - Dinamarca
  • Cinco Graças - França
  • O Filho de Saul - Hungria
  • O Abraço da Serpente - Colômbia

Melhor Animação


Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Body Team 12
  • Chau, Beyond The Lines
  • Claude Lanzmann: Spectres Of The Shoah
  • A Girl In The River: The Price Of Forgiveness
  • Last Day Of Freedom

Melhor Documentário em Longa-Metragem

  • Amy
  • Cartel Land
  • O Peso do Silêncio
  • What Happened, Miss Simone?
  • Winter on Fire: Ukraine's Fight fo Freedom

Melhor Curta-Metragem

  • Ave Maria
  • Day One
  • Everything Will Be Okay (Alles Wird Gut)
  • Shok
  • Stutterer

Melhor Curta em Animação

  • Bear Story
  • Prologue
  • Os Heróis de Sanjay
  • We Can't Live Without Cosmos
  • World of Tomorrow

12 de janeiro de 2016

Star Wars: O Despertar da Força (2º pitaco)

A Força está de Volta!

Star Wars: The Force Awakens, Dir: J.J. Abrams, EUA, 2015, 2h15min
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ALERTA: LOTADO DE SPOILERS

Após o pitaco sem spoilers (clique aqui para ler), que trata da parte técnica, vamos ao pitaco que trata da trama, feito após este pitaqueiro ter visto o filme 4 vezes. Fã faz essas coisas...

A trama, tem semelhanças muito grandes com o Episódio IV, Uma Nova Esperança (clique aqui para ler o pitaco sobre a Trilogia Clássica): importantes planos secretos foram escondidos em um dróide que vai parar em um planeta desértico onde vive uma humilde jovem órfã que sonha em deixar aquele lugar, e que, subitamente, vê-se envolvida no maior conflito da galáxia. No final, há uma gigantesca estação espacial ameaçadora que o heróis precisam destruir.


Apesar disso, o filme traz elementos novos marcantes. O principal é o fato de não existir mais um conflito já estabelecido entre os dois lados da Força. Luke sumiu e o espaço do lado luminosos ficou vago, sobrando só Kylo Ren e o Supremo Líder Snoke, representantes do lado negro. A Força tornou-se um mito, e é o antes cético Han Solo quem vai dizer aos novos heróis, Finn e Rey, que ela não é somente "mambo jambo", uma tolice.

Como já dito no outro pitaco, os novos personagens são sensacionais! Rey é apaixonante, com sua delicadeza, esperança, independência e coragem. Uma ótima heroína para as novas gerações, especialmente para as meninas. E a atuação da bela Daisy Ridley é sensacional! Impressionante saber que uma novata consegue ter tamanha presença em tela e tanta expressividade. Completando, a música tema do mestre John Williams cai com uma luva para a personagem (clique aqui para ouvir), com seu início delicado e seus momentos marcantes, que demonstram alguém descobrindo sua força. 

Kylo Ren é o outro lado da moeda e também muito interessante. O neto do temido Vader é um vilão ainda em preparação, sem equilíbrio emocional necessário, o que demonstra com seus chiliques destruidores. Adam Driver também mostra um bom trabalho ao ter de mostrar as emoções conflitantes do personagem na cena com Han Solo, a propósito, uma cena memorável, com grandes atuações, diálogos, ritmo, e fotografia.

Finn não é um personagem tão importante ou complexo, apesar de aparecer bastante, mas John Boyega cumpre bem a função de coadjuvante, servindo como alívio cômico e par romântico de Rey. A química entre os dois é imediata, ao contrário da forçação de barra que foi o amor entre Padmé e Anakin na Trilogia de Origem, fruto da má direção de George Lucas.

Infelizmente faltou destaque para Poe Dameron, vivido pelo fenomenal Oscar Isaac, que mesmo com sua pequena participação ganha o espectador na primeira cena e conduz o início da trama. O papel merece mais destaque nos próximos filmes, pois Isaac é um ator de primeira grandeza. O mesmo se pode dizer da Capitã Phasma, que apesar de seu look de destaque e de contar com a interpretação de uma atriz conhecida, Gwendoline Christie, não mostrou a que veio.

Muitas são as perguntas abertas, bem ao estilo Lost. As principais envolvem os eventos que ocorreram entre o lapso de tempo entre O Retorno de Jedi e O Despertar da Força. Talvez a principal pergunta seja "Quem é Rey?". Não sabemos quem são seus pais, por que foi deixada em Jakku, como adquiriu suas habilidades e nem de onde vem a Força que ela possui. Também há perguntas sobre o passado de Kylo, especialmente o motivo que o levou destruir a nascente Academia Jedi de Luke. E o mestre do mal, Snoke, também é um enigma. Alguns sugeriram ser ele uma reencarnação do finado Imperador Palpatine ou ainda de seu mestre Darth Plagueis, mas já foram desmentidos.

A perturbadora morte de Han Solo é prova do efeito que Game of Thrones provocou no mundo do entretenimento. Ninguém mais tem dó de matar personagens principais e amados pelo público. E alguns especulam que Kylo Ren o matou para se unir definitivamente ao lado negro, para que depois ele destrua o lado negro por dentro. Não acredito na teoria, apesar de achar excepcional, por um motivo simples: o filme é da Disney e os executivos do estúdio não vão permitir que se dê qualquer justificativa para um cara que mata o próprio pai, ainda que seja um meio para atingir um fim nobre.

Quanto à Starkiller, essa é uma reencarnação da Estrela da Morte. Já disse que o Universo de Star Wars não precisa sempre de uma arma gigantona pra assustar. E sua apresentação é feito de forma um pouco rápida e atrapalhada, pois não se cria um clima de tensão com a destruição dos planetas da República, como foi bem feito em Uma Nova Esperança com a destruição de Alderan. E sua pouca importância na trama é comprovada no momento em que sua destruição base é ofuscada pelo bem mais interessante confronto de sabres entre Kylo x Finn e Rey. Aliás, o momento em que Rey usa seu poder para puxar o sabre e se revela uma nova jedi é de arrepiar qualquer fã da saga. Um dos grandes momentos de toda a franquia, comparável ao "Eu sou seu pai".

O final é lindo! A fotografia é sensacional e a mistura dos temas musicais de Rey e Luke é espetacular (clique aqui para ouvir). O filme termina no momento certo. Luke tinha que aparecer, mas qualquer diálogo entre ele e Rey seria desnecessário. As expressões faciais dos atores falam mais que qualquer palavra. Para os entendedores aquele foi o encontro entre diferentes gerações de jedis, o mestre e a aprendiz.

J.J. Abrams foi muito competente em trazer de volta a magia de Star Wars. Os recordes de bilheteria comprovam. E os novos personagens apresentam muitas possibilidades de desenvolvimento. A Força está de volta!


Nota: 8

30 de dezembro de 2015

Top 10 de 2015

Para encerrar o ano, segue meu top 10 de filmes de 2014/2015 que vi neste ano. Clique nos títulos para ler os pitacos.

1. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Filme genial, tanto na forma quanto no conteúdo, que aborda diversos temas importantes à contemporaneidade e à sociedade do espetáculo. Michael Keaton merecia ter levado o Oscar de melhor ator.

2. Boyhood

Filme que mostra 12 anos se passando em menos de 3 horas. Um menino se torna um homem diante de nossos olhos. A obra-prima de Richard Linklater.

3. Whiplash

Intensidade máxima. Um filme que mantém o espectador tenso do começo ao fim.

4. Que Horas Ela Volta?

Sutil ao tratar do sério problema das relações sociais brasileiras. A melhor produção nacional em muitos anos.

5. Garota Exemplar

Roteiro com trama muito bem elaborada e ótimas atuações. Inexplicavelmente ficou de fora do Oscar de 2015. O segundo melhor filme de David Fincher, só perdendo para O Clube da Luta. 

6. Ex-Machina

Filme minimalista que trata do atualíssimo tema da inteligência artificial com atuações memoráveis.

7. Star Wars: O Despertar da Força

A Força está de volta! Com os melhores personagens e atuações de toda a saga.

8. O Grande Hotel Budapeste

Wes Anderson se consolida cada vez mais como um criador de fábulas. Humor negro e drama na medida certa.

9. Enquanto Somos Jovens

Reflexão para o pessoal entrando na meia idade em um mundo em constante transformação.

10. Perdido em Marte

Ficção científica interessante, com visual incrível e com um drama pessoal de sobrevivência.


Aproveito para agradecer a todos que leram os pitacos em 2015! Foi o melhor ano para o blog, com mais postagens e com melhora no visual e no conteúdo. Em breve, começa a maratona de análises dos indicados ao Oscar. 

Feliz 2016 a todos!

17 de dezembro de 2015

Star Wars: O Despertar da Força

A Saga Continua

Star Wars: The Force Awakens, Dir: J.J. Abrams, EUA, 2015, 2h 15min
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ALERTA: SEM SPOILER NENHUM SOBRE A TRAMA. LEIA SEM MEDO. 

Após uma das esperas mais aguardadas do cinema, eis que estreou Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força (que chamaremos aqui só de O Despertar da Força).

Os pitacos normalmente não contém muitos spoilers. Mas falar sobre esse filme sem dar spoilers é o maior desafio já enfrentado por este pitaqueiro. Porque, o trailer, como já parecia, não revela quase nada da trama.

Mas vamos falar sobre o que dá, sobretudo, a parte técnica. [Atualização: recebeu 5 indicações no Oscar 2016 em categorias técnicas: trilha sonora, edição, mixagem de som, edição de som e efeitos visuais. Tem boas chances em trilha e pode levar alguma outra, mas Mad Max: Estrada da Fúria é o favorito na maioria delas. Poderia ter sido indicado a melhor filme e a melhor atriz] O filme se passa cerca de 30 anos após O Retorno de Jedi (clique aqui para o pitaco sobre a Trilogia Clássica). Ao longo do filme, pouco se dirá sobre o que ocorreu neste ínterim. Aliás, muitas questões ficam no ar, sendo que J.J. Abrams, segue em parte o que fez com a série Lost, de a cada revelação lançar mais e mais questões. Isso acaba sendo até um problema, pois um pouco mais poderia ter sido revelado sobre o contexto do atual conflito, sobretudo sobre as forças em colisão, a Resistência e a Primeira Ordem, sem que isso gerasse menor curiosidade.

O filme tem muitas referências à saga, especialmente à Trilogia Clássica. Algumas falas são as mesmas de outros filmes e há situações muito semelhantes com outras já vividas. Como fã, acho interessante homenagear o pessoal da velha-guarda, mas acho que acabou sendo levemente exagerados.

As atuações são, de longe, as melhores de toda a saga. Apesar de alguns bons atores terem passado pelos filmes (como Alec Guiness, Ian McDiarmid e Christopher Lee), os protagonistas ou ficavam devendo ou eram mal dirigidos por George Lucas (o que os atores sempre afirmaram). Aqui Daisy Ridley (Rey), John Boyega (Finn) e Adam Driver (Kylo Ren) conduzem com bastante competências seus personagens. Os veteranos da trilogia original, Carrie Fisher (Leia), Harrison Ford (Han) e Mark Hammil (Luke) também não fazem feio, respeitando sua história. Destaque também para o roteiro, que trabalhou seus personagens melhor que qualquer outro filme da saga. Contudo, alguns personagens secundários não ganham o destaque que pareciam que iriam ganhar

A parte dos efeitos visuais equilibra muito bem o CGI com os efeitos práticos. Diferentemente da Trilogia de Origem, na qual percebe-se que não foi construído quase nenhum cenário e os atores tiveram de atuar na frente de um cenário verde, neste, os grandes cenários e os figurantes de carne e osso se destacam, dando um ótimo aspecto estético ao filme. O 3D é bem utilizado, com efeitos que parecem sair da tela e bom uso da diferença de profundidade de campo. As cenas com naves, como já indicavam no trailer, são as com maior proximidade já vistas na saga. E a parte dos duelos com sabres tem coreografias bem encenadas, sem exageros.

A edição é muito bem feita, com alternância boa entre sequências de ação e momentos de diálogos e desenvolvimento da trama. A direção de J.J. também é criativa, com boas tomadas e movimentos de câmera.

Analisando todos os filmes, O Despertar da Força fica certamente abaixo do perfeito O Império Contra-Ataca e um pouco abaixo de Uma Nova Esperança. Como eu gosto de A Vingança dos Sith (apesar dos problemas de roteiro e de estética que marcam toda a Trilogia de Origem), situaria o novo filme mais ou menos neste patamar. 

O Despertar da Força aparenta que vai resgatar de vez a saga e trazer uma nova legião de fãs [atualização de dez 2019: previsão confirmada!], que irão aprender a importância da estória que veio antes. Muitas são as questões deixadas para ser respondidas no próximo filme. Para felicidade geral dos fãs, desta vez, a espera será de somente 2 anos (e ainda teremos o spin-off Rogue One daqui um ano), ao contrário das outras trilogias em que havia um buraco de 3 anos entre os filmes.

Nota: 8 


P.S.: Quem já viu o filme pode ler o pitaco lotado de spoilers clicando aqui.

15 de dezembro de 2015

Star Wars, A Trilogia Clássica

Recapitulando




A poucas horas do lançamento do novo Star Wars: O Despertar da Força, seguem os pitacos para a trilogia clássica.

Episódio IV - Uma Nova Esperança

Filme que revolucionou o cinema e ajudou a desenvolver o conceito da indústria do blockbuster, Uma Nova Esperança (mais conhecido somente como Star Wars, ou antigamente Guerra nas Estrelas) apresenta temas mitológicos clássicos, em especial a jornada do herói. Uma Nova Esperança surpreende desde o início, com os dizeres de que uma estória futurista ocorreu há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante, seguida pela espetacular música tema de John Williams e os caracteres amarelos que sobrem em diagonal até se perder na imensidão. E na sequência surge a clássica tomada do destróier estelar perseguindo a nava da Princesa Leia, filmado em um ângulo em que a nave parece colossal.

A estória tem uma clara inspiração em contos de fada, em que um jovem simples, Luke Skywalker (Mark Hamill) tem que resgatar uma princesa, Leia (Carrie Fisher) das garras de um poderoso vilão, Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones), ensinado por um sábio mestre, Obi Wan Kenobi (Alec Guiness, um dos maiores atores do cinema à época) e com a ajuda de um cínico anti-herói imoral, Han Solo (Harrison Ford) e seu ajudante o peludo Chewbacca (Peter Mayhew) e em companhia de 2 androides que assistem a tudo de perto, o simpático R2-D2 (Kenny Baker) e o resmungão C-3PO (Anthony Daniels). No final, o jovem cumpre toda a tarefa, só não vence o vilão principal, que escapa do ataque final e voltará muito mais forte na sequência.

Aqui são apresentados boa parte dos elementos de Star Wars: a luta entre o bem e o mal, representada pela Aliança Rebelde e pelo Império, a existência de uma velha ordem de cavaleiros, os Jedi, que utilizavam a Força para cumprir sua missão de manter a paz e a ordem na Velha República, e para isso usavam seus icônicos sabres de luz. Star Wars nunca se preocupou com realismo científico, sendo que o maior exemplo é o som no espaço. Mas, vamos ser sinceros, as batalhas entre caças espaciais não seriam tão divertidas sem o som dos tiros e explosões.

No campo dos efeitos visuais e sonoros Star Wars foi absolutamente revolucionário. Muitas das coisas lá presentes nunca haviam sido feitas antes. E, a maior das surpresas, foi ter conseguido fazer isso com um orçamento bastante modesto para superproduções da época, cerca de 10 milhões de dólares.

Ao final, tudo parece caminhar bem para os heróis. Mas, 3 anos depois, surge o novo filme para mostra que não era bem assim.

Nota: 9

Episódio V - O Império Contra-Ataca

Considerado como o melhor filme da saga por 99 entre 100 fãs de Star Wars, O Império Contra-Ataca inicia-se com a busca incansável de Darth Vader por Luke Skywalker. Após a descoberta de sua base no primeiro filme, os rebeldes estão se instalando no gelado planeta de Hoth.

Quebrando os paradigmas dos filmes de aventura, que normalmente deixam a batalha para o final, O Império Contra-Ataca posiciona o confronto entre os exércitos antes da metade do filme. E isso não quebra seu clímax, pois haverá ainda fortes emoções pela frente. Aqui é apresentado o poderoso Mestre Yoda, um pequeno ser verde e grande conhecedor dos mistérios da Força, que tem de continuar o treinamento de Luke nas artes Jedi. Durante esse treinamento, Han Solo, Leia, Chewbaca e C-3PO tem de fugir da perseguição da poderosa frota imperial em meio a um campo de asteroides, resultando na sequência espacial mais bonita de toda a saga. Por fim, fogem para a Cidade das Nuvens, onde caem em uma cilada armada por Vader. Luke, então pressentindo o perigo, parte para salvar seus amigos, e tem de enfrentar Vader. Surge aqui o maior momento da saga, quando Vader revela a Luke que é seu pai.

O filme é o melhor de todos e não há nada que poderia ter feito ele ser melhor. A parte técnica é belíssima. Quanto à trama, a ausência de uma intimidadora Estrela da Morte não faz o Império parecer mais fraco, ao contrário, pois no filme anterior o poder imperial foi mostrado somente com um cruzador, alguns caças e a superbase. Neste, vemos o poder de parte da frota imperial, com um super destróier ocupando a tela em sua apresentação, bem maior que o destróier que parecia gigantesco no primeiro filme. E também é mostrada a primeira batalha terrestre da saga, com os gigantes tanques AT-AT Walkers.

Luke deixa de ser um personagem ingênuo e passa por provações e dúvidas. Vader, ao contrário do filme anterior, que parecia ser só mais um burocrata do Império, aqui se mostra como o Supremo Comandante das Forças Imperiais que é, sendo inclemente com os oficiais que comentem erros. Todos os personagens ganham profundidade, sendo o filme em que suas personalidades melhor são desenvolvidas.

O incrível do filme é que apresenta sua maior revelação, o fato de Luke ser filho de Vader, nos últimos minutos de projeção, deixando a questão em suspenso, com em uma novela ou seriado. A diferença é que nesses a dúvida seria resolvida no dia ou na semana seguinte e na trilogia o público teve de esperar 3 anos para a confirmação da resposta. Alguns questionam o final em aberto, com Luke em dúvida existencial e Han levado congelado em carbonita para o vilão Jabba. Mas essa é a grande força deste filme tão sombrio. E então surge a última parte para encerrar a estória.

Nota: 10

Episódio VI - O Retorno de Jedi

Preguiça. Talvez essa seja a palavra para descrever o roteiro escrito por George Lucas e Lawrence Kasdan para fechar a saga. A começar pela grande ameaça que é, novamente, a Estrela da Morte. George Lucas, nos comentários de Uma Nova Esperança afirma que escreveu originalmente um filme só e que posteriormente, quando percebeu que a estória era muito grande, teve de dividi-la em 3 partes. A Estrela da Morte apareceria somente no ato final, mas para que a primeira parte tivesse um clímax, deslocou-a para esta. A atitude é bastante compreensível, tendo em vista que o primeiro filme deveria se mostrar financeiramente viável, e para isso é necessário um momento de catarse. Mas, sendo assim, custava ter um pouco mais de capricho e criar uma outra ameaça na última parte, já que já usou a Estrela da Morte na primeira? Enfim, só isso já revela a preguiça que se seguirá ao longo do filme.

O filme começa bem. Após mostrar que o Império está projetando a nova Estrela da Morte, a grande batalha entre Império e Rebeldes é deixada em suspenso para que os heróis resolvam seus próprios problemas, com o resgate de Han Solo no palácio de Jabba, the Hut. Aqui temos uma boa sequência que vai expandido o universo de Star Wars, mostrando cada vez mais que a galáxia não vive somente do conflito entre o Império e os Rebeldes. Jabba tem um poder à parte deste conflito, como um poderoso senhor feudal. Luke mostra-se um personagem maduro, já praticamente um cavaleiro Jedi, poderoso e seguro. A luta final contra o vilão, que parece uma lesma gigante, e seus comandados é talvez o maior clímax do filme (e aí surge Leia vestida de escrava odalisca, motivo de sonhos eróticos de toda uma geração).

Após isso, a estória retoma o conflito Império x Rebeldes e nos leva a pequena lua de Endor, de onde é controlado o escudo de defesa da Estrela da Morte, que deve ser capturado para o ataque final ao Império. Aí surgem em cena os nativos do local, os fofinhos ewoks, que só existem para infantilizar a saga, na ideia de que é possível que um bando de ursinhos de 1 metro de altura armados de lanças e pedras vençam o todo poderoso Império Galático. Não só sua existência é um problema, pois consome-se muito tempo na apresentação desses "ursinhos carinhosos", quando poderia-se trabalhar temas bem mais interessantes, como o conflito entre Luke e Vader.

No fim, por conta desse tempo perdido, tudo é contado de maneira apressada: Luke tem seu confronto final com Vader sob os olhos do imperador, que quer trazê-lo para o lado negro da Força, ao mesmo tempo em que Han e Leia estão tentando tomar a usina geradora do escudo da Estrela da Morte e que a frota rebelde lança seu ataque final à base e cai em uma cilada da frota imperial. Até mesmo o confronto de sabres de luz perde a intensidade do que ocorreu em O Império Contra-Ataca. No final, Vader, compadecido com o sofrimento de Luke sob os poderes do Imperador, se redime e lança seu mestre em um fosso. No entanto, fica fragilizado por ter absorvido os poderes do Imperador e pede para que Luke remova sua máscara durante sua agonia. Luke por fim crema o corpo de seu pai (daí resultando na máscara deformada que será mostrada no novo filme) e depois se junta aos rebeldes na celebraçãozinha na vila dos ewoks.

Nota: 6



Esse foi um resumo. Os comentários estão abertos para quem quiser tratar outro tema que não tenha sido abordado. Agora é esperar para saber o que ocorreu após isso, pergunta a ser respondida nos primeiros momentos do novo filme. Sejam legais e não soltem spoilers após ver O Despertar da Força. 

Que a Força esteja com vocês!



P.S: Se tudo der certo, como sou fã e vou na estreia à 0h01 de quinta-feira, lanço o pitaco (sem spoilers) sobre o novo filme no mesmo dia.

24 de novembro de 2015

O Ano Mais Violento

O Caminho do Bem

A Most Violent Year, Dir: J.C. Chandor, EUA/Emirados Árabes, 2014, 125min
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Filme que foi elogiado por parte da crítica e completamente ignorado pelo Oscar 2015, O Ano Mais Violento se passa no inverno de 1981 em Nova York, período mais violento da história da cidade. Apesar do título, o filme não vai fazer uma análise sobre os problemas de violência, mas contar uma estória bem específica, de um empresário que tenta vencer em seu negócio de venda de óleo para aquecimento em meio a este difícil contexto (e pelas estatísticas que li, esse ano mais violento de NY não é muito pior do que tem sido a realidade de todas as cidades médias e grandes do Brasil atual).

Abel Morales (Oscar Isaac) é um imigrante latino que se fez sozinho à base de muito trabalho. Mas no momento em que busca uma grande expansão em seu negócio, se vê pressionado por vários lados: pelos frequentes assaltos a suas cargas e por seus motoristas que querem andar armados, por uma investigação do ministério público a seus negócios, pelo dono do terreno que ele negociou e não aceita a prorrogação de seu pagamento, pelos bancos que lhe negam crédito, pelos seus competidores que ele suspeita que são os responsáveis por roubar suas cargas e até mesmo pela esposa (Jessica Chastain), filha de mafioso que questiona seus métodos.

Esses conflitos que envolvem Abel e seu dilema moral entre seguir tentando ser correto ou de se deixar levar por toda a podridão que o cerca conduzem o filme. O roteiro tem seus problemas, pois há muitos diálogos desinteressantes, parece que o filme vai andando em círculos e que não se sabe bem onde vai chegar. A edição compromete ainda mais isso, fazendo um filme um pouco enfadonho. Há alguns momentos de muita tensão, mas a violência é mais representada pela sua ameaça do que por tiros e sangue jorrando na tela.

A direção de J.C Chandor conduz muito bem seus atores, que são o ponto mais forte do filme. Oscar Isaac e Jessica Chastain são dois dos atores mais talentosos de sua geração. Após muitos elogios da crítica com filmes mais artísticos, ambos agora se lançam em blockbusters, ele terá papéis de destaque em Star Wars e em X-Men e ela fez parte do elenco de Perdido em Marte (clique aqui para ler o pitaco) e estará em O Caçador e a Rainha de Gelo. Ela já foi indicada ao Oscar por sua ótima performance em A Hora Mais Escura, e ele, se seguir com boas atuações como essa e a de Ex-Machina (clique aqui para ler o pitaco), em breve estará disputando o prêmio. Completa o elenco outro bom ator, David Oyelowo, que foi esnobado pelo Oscar 2015 com sua boa interpretação de Martin Luther King em Selma (clique aqui para ler o pitaco). Em cena, todos entregam um ótimo trabalho.

Na parte técnica, há uma bela fotografia e uma ótima produção de época. Também as esparsas cenas de ação são bem conduzidas de forma realista, sem pirotecnias, efeitos especiais ou tiros pra todos os lados.

O Ano Mais Violento é um filme que exige uma certa disposição do espectador que não deve querer ver tudo explicado de forma rápida. Talvez o seu realismo seja tanto que faça o filme se parecer com a vida real, onde as coisas se desenvolvem lentamente, sem muita linearidade e de forma chata. Mas é um bom filme, especialmente pelos ótimos atores.

Nota: 7


17 de novembro de 2015

Aliança do Crime

Bandidos sem Scorsese

Black Mass, Dir: Scott Cooper, EUA/Reino Unido, 2015, 122min
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Está correndo por aí a piada de que Aliança do Crime é um filme de gangsteres sem o talento de Martin Scorsese. Sem deméritos à esforçada produção, mas é por aí. 

O filme conta a história real de James "Whitey" Bulger (Johnny Depp), um dos criminosos mais procurados da história dos EUA, que conseguiu destruir todos os seus rivais e expandir sua organização criminosa graças à aliança que estabeleceu com um amigo de infância que se tornou agente do FBI, John Connolly (Joel Edgerton), pelo qual se tornaria informante do órgão em troca de imunidade.

Esses dois homens são bastante complexos. Bulger é um bom vizinho e um pai atencioso e, simultaneamente, um criminoso ambicioso e matador impiedoso. Connolly quer fazer seu trabalho como policial e destruir a máfia italiana, mas ao mesmo tempo quer ganhar as manchetes de jornal e também provar a seu velho amigo de infância que é um cara que merece respeito (ainda que o respeito que ele almeje seja o de um criminoso frio e sanguinário).

O roteiro e a direção não têm nada de especial, mas são bem feitos. Destaca-se a boa delimitação do recorte temporal, mostrando a ascensão de Bulger até a queda de seu esquema. Após isso, ele passou anos foragido, mas o filme somente cita o fato, já que este período é uma estória à parte. Interessante observar que o filme não mostra nenhum sinal externo de empoderamento de Bulger, que sempre se parece o mesmo. Sabe-se que ele cresceu por conta dos diálogos e nada mais. Isso é válido, na medida em que Bulger, como boa parte dos gangsteres bem sucedidos, controlam um império silencioso. Quem for assistir não deve esperar um filme de ação, pois não é disso que se trata. Há algumas cenas bastante violentas, mas as mais tensas são as que mostram somente ameaças.

O maior problema do filme é a péssima maquiagem de Johnny Depp. A careca é notadamente artificial, com os cabelos laterais parecendo de boneca. As lentes de contato azuis são ainda piores, atrapalhando a atuação, pois os olhos são um dos elementos mais marcantes em atuações cinematográficas. Os produtores poderiam ter relexado mais na caracterização e deixado Depp mais à vontade. Mas talvez Depp já esteja incorporando maquiagens pesadas à sua persona, em vista de suas constantes mudanças de visual.

Johnny Depp dessa vez pegou um papel menos caricato do que os que vinha fazendo (Jack Sparrow, Chapeleiro Maluco e Willy Wonka), merecendo a atenção da crítica. Ele vai bem no filme, mas não é um trabalho digno de estatueta do Oscar, como está sendo apontado. Apesar de caricato, prefiro sua performance no primeiro Piratas do Caribe (que lhe rendeu uma de suas 3 indicações). O verdadeiro protagonista é Joel Edgerton, que é um ator canastrão, mas aqui seus exageros interpretativos casam bem com seu personagem, que possui uma vaidade ímpar. Os demais atores vão bem, incluindo o ótimo Benedict Cumberbatch, em papel secundário.

Aliança do Crime é um bom filme de criminosos, que, mesmo sem Martin Scorsese, consegue contar bem sua estória, sobretudo em razão das atuações.

Nota: 6

12 de novembro de 2015

007 Contra Spectre

Desfecho Regular para a Fase de Craig como Bond

Spectre, Dir: Sam Mendes, Reino Unido/EUA, 2015, 148min
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007 está de volta após sua melhor aventura, 007 - Operação Skyfall (não fiz o pitaco, mas daria nota 8).  E mais uma vez a estória busca revelar mais sobre a personagem mais constante do cinema, cujo nebuloso passado quase nunca tinha sido mostrado. No entanto, decepciona.

A trama começa com Bond resolvendo pendências deixadas pela falecida M. Aliás, o filme começa com um longo plano sequência muito bem realizado. A trilha que ele segue o leva a uma poderosa organização secreta, a Spectre, entidade que já tinha existido nos velhos tempos de Sean Connery como Bond. E também vai-se mais a fundo no passado de Bond e mostra a conexão havida em todas as estórias da atual fase de Bond, ligando Vesper Lynd, Le Chiffre, Greene e Silva.

No filme anterior vimos o louvável resgate de alguns elementos do universo Bond, como a reintrodução da secretária Moneypenny, do inventor Q, do Aston Martin e do retorno da música tema. Nesse, o resgate continua, mas, infelizmente, parece que quiseram resgatar o que Bond tinha de mais caricato e que foi alvo das ótimas paródias de Austin Powers. Estão de volta o exército de capangas uniformizados, o vilão com paletó de gola reta e Bond enfrentando 15 caras de uma só vez. Uma pena, pois nessa fase com Daniel Craig no papel principal, notou-se uma busca por um certo realismo (na medida do possível para a série, obviamente), em clara inspiração na série concorrente de Jason Bourne. Retoma-se, assim, o que houve de pior em filmes de Bond, especialmente nas fases em que o protagonista foi vivido por Roger Moore e Timothy Dalton.

Como sempre, os cenários e a fotografia do filme são muito bem feitos. Contudo, as cenas de ação tem a edição muito recortada, o que normalmente torna a cena cansativa para o espectador. O ótimo diretor Sam Mendes, aclamado pela obra-prima Beleza Americana e responsável pelo filme antecessor, perdeu um pouco a mão aqui, talvez por conta do roteiro que quis resgatar estes pontos fracos da série Bond.

Daniel Craig, ao que tudo indica, em sua última aparição como Bond, mostra-se completamente à vontade no papel, superando as críticas que fizeram quando foi escolhido por ser loiro, baixo e forte. A talentosa Léa Seidoux mostra sua versatilidade ao encarar uma bond girl muito feminina e sexy, papel diametralmente oposto ao que protagonizou no recente Azul É a Cor Mais Quente (clique aqui para ler o pitaco). E o fenomenal Christoph Waltz encarna o típico vilão sádico característico da série, não mostrando o seu melhor aqui, mas também não faz feio. E há ainda espaço para um capanga fortão e indestrutível, vivido pelo ex-lutador de luta-livre Dave Bautista, seguindo a tradição de Oddjob e Jaws.

E também cabe o destaque da música-tema, uma das piores da série, interpretada por Sam Smith em gritos agudíssimos (link aqui). A comparação com a exuberante Adele cantando o ótimo tema do filme anterior é imediata (link aqui). A propósito, clique nos links para ouvir algumas das melhores músicas da série: GoldfingerViva e Deixe Morrer (do mito Paul McCartney), Os Diamantes são EternosNa Mira dos AssassinosLicença para MatarO Amanhã Nunca Morre e Casino Royale.

007 contra Spectre perde a linha que estava sendo bem construída nessa nova fase. Faz bem em cavar mais a fundo a origem de Bond, mas erra ao incorporar os elementos mais caricatos das tramas anteriores. Uma melancólica provável despedida para Daniel Craig.

Nota: 5

10 de novembro de 2015

Ex Machina

Máquina do Amor

Dir: Alex Garland, Reino Unido, 2015, 108min
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A Inteligência artificial levada à sério. Isso é o que se pode esperar de Ex Machina, filme britânico que, infelizmente, sequer passou pelos cinemas brasileiros, sendo lançado diretamente em DVD, e passando despercebido por boa parte da crítica e do público.

Assim como fiz no pitaco de Vingadores - Era de Ultron (clique aqui para ler), novamente sugiro aqui o ótimo texto do blog Wait But Why que trata dos computadores pensantes (clique aqui), que podem ser a maior revolução na História ou podem ser o caminho mais curto para a completa aniquilação humana.

Na trama, um programador de um grande conglomerado de buscas da internet (qualquer semelhança com o Google não é mera coincidência), Caleb (Domhnall Gleeson), é sorteado para passar um tempo com o dono da empresa, Nathan (Oscar Isaac). Quando chega ao local ele descobre que seu propósito de estar lá seria o de aplicar o Teste de Turing, que consiste em avaliar se uma máquina consegue se passar por humano (aliás, o brilhante Alan Turing ganhou recentemente uma cinebiografia bem meia boca, O Jogo da Imitação, clique aqui para ler o pitaco). No caso, de cara Caleb sabe que estará lidando com uma máquina, e o desafio será de buscar alguma inconsistência que ateste que a máquina não é uma mulher, como parece.

Uma das características mais notáveis na androide Ava (Alicia Vikander) é o fato de ter como uma de suas características o componente sexual. Aliás, qualquer um que queira criar uma máquina que se passe por humano não pode esquecer disso. Começa aí o jogo de sedução e manipulação entre Ava e Caleb, que deixa o protagonista completamente perdido com relação a todos os seus referenciais na vida.

O roteiro é denso e intelectualmente complexo. As discussões envolvem filosofia e semiótica (a ciência que estudo os sistemas de significação), necessárias quando se discute inteligência artificial, tendo em vista que para tentar recriar o pensamento humano temos que entender o que é o pensamento humano. Há também algumas referências culturais relativamente refinadas, como citações ao pintor contemporâneo Jackson Pollock e ao criador da bomba nuclear, Robert Oppenheimer.

O filme tem um cenário bastante simples, se passando quase que por completo na mansão meio subterrânea meio integrada à natureza de Nathan. Os efeitos visuais da criação do corpo de Ava são muito bem feitos. A música discreta casa-se perfeitamente ao tema, gerando um incômodo e uma tensão permanentes.

O elenco também acompanha essa simplicidade, com apenas 4 personagens, com grandes atuações. O protagonista, Domhnall Gleeson, é o que menos se destaca, mas não deixa a desejar. Seu antagonista, Oscar Isaac, surpreende no papel, compondo uma personagem muito enigmática. Vale lembrar que ambos estarão presentes no aguardado Star Wars: O Despertar da Força (que pretendo analisar aqui no dia do seu lançamento). E Alicia Vikander seduz e confunde a todos com seus belos e grandes olhos. Todos eles são estrelas em ascensão em Hollywood e vale guardar seus nomes (Vikander está cotada para uma indicação à atriz coadjuvante pelo futuro lançamento A Garota Dinamarquesa).

A direção do novato Alex Garland (que tem em seu currículo alguns roteiros, incluindo o deste filme) é bastante eficiente e extrai o máximo desse minimalismo de cenários e personagens. A edição também é bastante competente em manter a tensão permanente.

Ex Machina é um filme muito bom e merece ser visto por quem gosta de uma estória focando tema atual, uma boa trama e boas atuações. Até o momento, é a melhor produção em língua inglesa de 2015.


Nota: 8

3 de novembro de 2015

Ponte dos Espiões

Ponte dos Clichês Americanos

Bridge of Spies, Dir: Steven Spielberg, EUA, 2015, 141min
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Em mais um filme da sua linha séria, o celebrado diretor Steven Spielberg conduz os espectadores ao conturbado período da Guerra Fria, e traz com ele, pela quarta vez, Tom Hanks como protagonista. O filme é baseado em uma história real muito interessante e é bem conduzido em boa parte. Contudo, o acúmulo dos exageros patrióticos do filme põe tudo a perder no final.

[Atualização: Na corrida do Oscar 2016 recebeu 6 indicações: filme, ator coadjuvante, roteiro original, design de produção trilha sonora e mixagem de som. Só tem chances em ator coadjuvante e design de produção (que são merecedoras de elogios), mas possivelmente não vai ganhar nada.]

No primeiro ato da trama, o advogado Jim Donovan (Tom Hanks) é requisitado para defender um espião soviético que agia em solo americano, Rudolf Abel (Mark Rylance). No segundo ato, após o processo em que ele consegue salvar seu cliente da pena de morte, ele é requisitado pela CIA para trocá-lo por um prisioneiro americano, um piloto abatido na URSS, Francis Powers (Austin Stowell), que estava em poder dos soviéticos.

De início já temos de relevar algumas patriotadas do filme. Como costuma ocorrer, há uma quase profissão de fé em torno do "american way of life" e do sistema legal do país (com direito a cena com as crianças prestando juramento patriótico em sala de aula, bastante desnecessária ao andamento da trama). Como a estória é boa e bem contada (até certa parte, que discutiremos em breve), dá pra aceitar tais exageros, já que não tomam tanto espaço.

A primeira cena é bastante interessante, parecendo se tratar de um filme europeu, pois faz uma longa tomada do espião russo, sem diálogos, só focando em pequenos gestos de sua rotina e o monitoramento que o FBI realiza sobre ele. A espionagem aqui passa longe dos delírios cinematográficos da linha James Bond/Ethan Hunt. 

A primeira parte tem diversos méritos, especialmente por discutir o papel do advogado de defesa no exercício da Justiça. Donovan passa a ser visto com desdém por boa parte da sociedade e sua posterior insistência em recorrer a Suprema Corte após já estar afastada a possiblidade de pena de morte passa a incomodar até mesmo seus sócios e sua família, que não entendem porque ir tão longe com esse caso. Tal construção é muito interessante, pois seria necessário que todos pudessem diferenciar o advogado do cliente que ele defende. Defender bandido não é ser bandido. Depois que vimos no Brasil advogados de réus célebres sendo agredidos na rua (leia a notícia aqui) é bom reforçar isso.

Na segunda parte, Donovan tem de fazer a troca de prisioneiros à margem dos contatos oficiais dos países, e aí os problemas do roteiro do filme começam a se agravar (provavelmente os brilhantes irmãos Joel e Ethan Cohen, que são corroteiristas, pararam por aí). Berlin Oriental provavelmente não era o melhor lugar do mundo para se viver no início dos anos 60, mas as cores são extremamente carregadas por Spielberg. Os soldados alemães orientais são retratados como um bando de trogloditas loucos para bater nos traidores do socialismo. E o maniqueísmo spielbergiano torna-se ainda mais evidente. Enquanto mostra o piloto americano sendo submetido a tortura psicológica pelos soviéticos, com privação de sono e água fria na cara, para revelar seus segredos, o soviético preso nos EUA é sempre mostrado com tratamento de primeiro mundo. Depois do que o mundo viu o que ocorreu em Guantánamo e Abu Ghraib, é quase impossível que o espectador bem informado acredite em tamanha benevolência dos americanos.

E no clímax do filme parece que estaciona na ponte da troca dos espiões um caminhão de clichês e despeja todo seu conteúdo. Os diálogos, as tomadas, o cenário, a música e as atuações, ou seja, todos os elementos, servem para compor o heroísmo de Donovan, servindo como metáfora dos EUA.

E o que já estava ruim fica ainda pior, pois Spielberg, em sua obsessão patológica por finais felizes, parece se ver obrigado a contar como é o retorno de Donovan para casa, o que poderia ser suprimido do filme e melhorado a obra. Tal final lembrou-me muito de A.I.: Inteligência Artificial, em cujo fim há uma cena linda, em que o pequeno andróide fica vivendo em uma esperança vã eterna. Se o filme terminasse ali seria uma grande obra. Mas Spielberg estraga a ideia original que tinha trabalhado com o genial Stanley Kubrick e inventa uma estória sem pé nem cabeça, em que tem que trazer aliens para a Terra (é isso mesmo!) e fazer a alegria do robozinho. [Errata: como fui corrigido por dois comentários, não eram ETs, mas robôs mais avançados. Peço desculpas pelo erro, mas não muda minha opinião sobre o final].

Apesar dos defeitos do cinema de Spielberg, é inegável a grande qualidade técnica de todos os filmes em que ele se envolve. A fotografia é discreta em muitos momentos, utilizando-se de muitos cenários escuros iluminados somente por luz que vem de uma janela. Nos momentos com maior ação sempre há câmeras em movimento. O design de produção é bem feito, com apuro nos detalhes. E a edição não cansa o espectador, especialmente com as pitadas de humor inseridas nos momentos corretos.


O filme conta com somente dois atores em papéis realmente importantes, os mencionados Hanks e Rylance [atualização: indicado ao Oscar de coadjuvante]. Hanks está em sua melhor atuação dramática desde Náufrago (e lá se vão 15 anos), e é quase certo que só seu nome já basta para lhe garantir uma indicação ao Oscar, já que ganhou a indicação até mesmo com sua atuação razoável em Capitão Philips (clique aqui para ler o pitaco). A produção até comete um erro de escalação ao colocar um ator de renome como Alan Alda em um papel quase que figurante e que nada acrescenta. Uma boa surpresa é ter o bom ator alemão Sebastian Koch, protagonista do ótimo A Vida dos Outros (clique aqui para ler o pitaco), no papel de um agente da Alemanha Oriental.


Tenho um profundo respeito por Spielberg, que revolucionou o cinema na virada entre os anos 70 e 80. Mas desde os anos 90, em que fez em sequência os celebrados Jurassic Park e A Lista de Schindler, não apresenta nenhum filme memorável. Aliás, revi recentemente esse último, e apesar de haver um herói relutante e um vilão nazista monstruoso, Spielberg conduz o filme de maneira muito mais séria e com a mão muito mais calibrada.

Apesar disso tudo, a chance da Academia ignorar toda essa patriotada (ou não só ignorar, como vibrar com todos esses exageros de endeusamento da nação) e incluir o filme em diversas categorias no próximo Oscar é quase certa, haja vista que outra patriotada maniqueísta como Sniper Americano (clique aqui para ler o pitaco) estava na lista de melhores filmes na última premiação [atualização: previsão confirmada].

Ponte dos Espiões tem todos os méritos técnicos dominados por Hollywood mas que desperdiça uma boa estória em meio a seu maniqueísmo e patriotismo exagerados. O que faz o espectador mais culto querer fugir cada vez mais de filmes de estúdio, já que parece que em todas as estórias contadas por eles é necessária a presença de um herói, e não de pessoas reais. A seriedade e o realismo passam longe.

Nota: 4